Escândalo na KTM ou ‘lobby EU’ em ação outra vez?

By on 30 Maio, 2026
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Uma investigação ambiental levanta acusações, mas o fabricante nega

Uma investigação internacional coordenada por um consórcio de jornais reacendeu a discussão sobre as emissões no mundo das duas rodas. O foco está na homologação Euro 5+ e na subsequente configuração das motos enduro pelos concessionários.
Uma nova frente na questão das emissões e homologações de veículos motorizados abriu-se no mundo das duas rodas e está a provocar escândalo. Foi reacendida por uma investigação internacional do consórcio jornalístico #Unrestricted, coordenado pela organização ambiental sem fins lucrativos Climate Whistleblowing.
A investigação recorda o escândalo Dieselgate e reabre a discussão sobre os procedimentos de certificação ambiental dos veículos. De acordo com a investigação, que envolve vários jornais europeus, entre os quais Le Monde, El País, Der Spiegel, ZDF e ORF, algumas motos de Enduro produzidas pela KTM e marcas relacionadas, como a GasGas e a Husqvarna, são comercializadas numa configuração limitada para obter a homologação Euro 5+ para utilização na via pública, sendo posteriormente reconfiguradas para utilização real.

Investigações do Consórcio e Testes de Emissões
A investigação, conduzida em seis países europeus — França, Alemanha, Áustria, Espanha, Itália e Reino Unido, baseia-se também em inspeções realizadas a aproximadamente quinze concessionários. De acordo com o relatório citado na investigação e encomendado pelo Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT) da Universidade Checa de Ciências da Vida de Praga, os testes numa moto de enduro sem as limitações revelaram emissões de monóxido de carbono, hidrocarbonetos e partículas que excedem os níveis permitidos para a circulação na via pública numa configuração homologada.

Capa do relatório causador da polêmica

O Quadro Regulamentar e as Possíveis Violações
No centro do debate está também a regulamentação europeia sobre a homologação e fiscalização do mercado de veículos de duas e três rodas, que proíbe modificações substanciais após a homologação e exige que os fabricantes impeçam tais intervenções ou intervenham em caso de incumprimento. De acordo com a investigação, as autoridades nacionais e europeias competentes estão a avaliar os factos que vieram a público. A Comissão Europeia e vários organismos nacionais, incluindo a KBA alemã, confirmaram a sua intenção de investigar o assunto mais a fundo. O relatório completo pode ser visualizado aqui.
A investigação encontra-se agora numa fase de revisão institucional a nível europeu. Importa salientar que, neste momento, as autoridades competentes não tomaram uma posição definitiva, mas o caso foi formalmente levado ao conhecimento da Comissão Europeia.

Resposta da KTM
Entretanto, a KTM já respondeu às acusações com uma declaração específica. Reproduzimo-la na íntegra abaixo:
Declaração da KTM AG sobre notícias recentes dos media a respeito dos modelos Enduro
“Rejeitamos veementemente as acusações veiculadas em recentes artigos de imprensa de que a KTM está a comercializar motociclos ilegais. O Grupo KTM comercializa as suas motos exclusivamente em conformidade com as normas europeias em vigor.
Vamos esclarecer o que entendemos por modelos enduro: Pela sua própria natureza, os modelos enduro são motociclos desportivos que, na sua configuração homologada de fábrica, também estão homologados para utilização na via pública. Esta dupla finalidade é intencional, necessária e padrão em toda a indústria: para que as motos de enduro participem em competições oficiais, devem ser entregues em condições homologadas que estejam em conformidade com os regulamentos da Federação Internacional de Motociclismo (FIM). Esta não é uma prática específica da KTM, nem confere uma vantagem competitiva desleal sobre os seus concorrentes. Todos os modelos enduro da KTM, Husqvarna e GASGAS saem da nossa fábrica exclusivamente numa configuração homologada para utilização na via pública. As conversões para utilização em circuito fechado são realizadas por concessionários autorizados a pedido do cliente – com aviso explícito de que a homologação para utilização na via pública deixa de ser válida após a conversão e o veículo já não poderá ser utilizado na via pública.
Para contextualizar: Os modelos Enduro representam aproximadamente 3% das vendas globais da KTM. De acordo com a Agência Federal Alemã do Ambiente, as motos contribuem com aproximadamente 0,3% do total das emissões de CO₂ na Alemanha – os modelos de competição enduro representam apenas uma pequena fração deste total, com quilometragens anuais muitas vezes inferiores às motos de estrada.”

Está bem de ver que motos de Enduro usadas em competição vão percorrer quilometragens irrisórias em prova, normalmente aos fins de semana e destas só por vezes uns metros, no caso da travessia de vias públicas, são feitos em asfalto. Para mais, como qualquer veículo de competição, são mantidas frequentemente sem olhar a custo, o que implica que estarão em melhores condições do que a vasta maioria dos veículos que compõem o trânsito citadino 5 ou 6 dias por semana, esses sim, contribuindo maioritariamente para a poluição. O exemplo dado da Alemanha acima é elucidativo disso mesmo.